quarta-feira, 22 de julho de 2015

Animamundi 2015: Dia 3

É, não dava para manter o nível. Nem por isso foi menos bom.
  • Curtas 6
Foi a sessão mais fraca até agora, apenar da presença do Marão, conhecido animador brasileiro e autor do primeiro da sessão, Até a China (nota 3). Não gostei da dublagem, que achei um tanto gaguejada.
O único destaque foi Ray´s Big Idea, um britânico curto em 3D, brincando sobre conceitos de Evolução Natural.
  • Curtas 2
Melhor, melhor. Estamos aquecendo o dia.
O dinamarquês Vagabond mereceu nota 4, com uma bela história de ação de um, por assim dizer, mendigo tentando salvar seu cão. Usa técnica estilizada que não compromete os movimentos realistas.
El Ladrón de Caras é daqueles complicado de comentar. Digamos assim: há uma coisa, um conhecimento que seria bom a pessoa ter antes de assistir o curta. Mas se eu disser o que é, acaba sendo um tipo de spoiler. Então recomendo a todos assistirem e depois perguntarem o que era. Nota 5, sem dúvida. E melhor do dia.
  • Curtas 9
Agora sim!
O Extraordinário Caso do Sr. A é o melhor brasileiro até o momento. Humorístico, que é o que fazemos de melhor, tem um certo grau de interação com o público, inclusive. Vale 4.
Violet merece o 5 que dei sim. Tanto pela técnica, que mostra espelhos o tempo todo na história, quanto ao roteiro, uma leitura interessante de um conto de fadas.
Smart Monkey pecou apenas por misturar duas partes desnecessariamente. Nem por isso as partes são ruins, mas é uma aventura de um macaco fisicamente fraco e mentalmente superior em tempos remotos. Diversão certa.





terça-feira, 21 de julho de 2015

Custo Brasil

Nem todos sabem o que vou relatar aqui. Mas tentarei ser sucinto na medida do possível.
Em 2008 fui contratado para representar no Brasil a City Interactive. Preparei aqui um total de 12 jogos para serem lançados em formato de revista+jogo em bancas. Eu tinha experiência nesse tipo de operação e montei tudo que era necessário para fechar negócio. Tinha sim uma boa grana para explorar ali. 
O projeto naufragou 13 meses depois, em junho de 2009. Basicamente, a matriz polonesa não compreendeu as diferenças de mercado entre o deles e o nosso. Para eles, o natural é vender 60-65% da tiragem, com margens elevadas a favor da editora (descontos máximos de 30%) e depois inutilizar as sobras. No Brasil, as margens de desconto giram em torno de 50% e qualquer venda de 40% na primeira passagem em banca é celebrada com festa. Muito piores, portanto. Mas o termo "primeira passagem" remete ao fato de se fazer múltiplas passagens em banca, até devido às dimensões do país. E no processo que demora 2 anos em vez dos 2 meses na Polônia, chega-se a margens de lucro similares.
Que fique claro, eu não me esquivo da minha parcela de culpa. Se a matriz não soube entender, inegável que eu não soube explicar. Talvez eu devesse ter feito mais tabelas, mais gráficos, mais coloridos ainda. Talvez eu devesse ter ligado para o Marek.
Fato é que em junho de 2009 eles deram o projeto como perdido e mandaram eu fechar a empresa City Interactive Brasil, da qual eu era diretor sem uma confort letter.
Então...

Hoje, dia 21/07/2015, consegui dar baixa no último documento.

A maior preocupação era, sem a confort letter, ser responsabilizado por qualquer papel inútil que deixasse de ser entregue depois que a matriz me largou aqui (sem pagar minha rescisão). Hoje isso acabou.
E aí está, Brasil. SEIS ANOS para fechar uma empresa. 
SEIS ANOS.

Anima Mundi 2015: Dia 2

Não pude ir no sábado, então segue a análise das duas sessões de domingo, 19/07/2015.
  • Curtas 1
Outra ótima sessão, com apenas um ruim, brasileiro infelizmente.
A sessão começa com Symmetricity, uma animação russa longa (24 minutos) com uma história de diversas facetas. O time conseguiu misturar estilos distintos em momentos diferentes da história. Tem leveza de uma história de amor, uma parte da vida de um artista, interação com o ambiente e alguma coisa psicodélica. A melhor do dia, devo dizer. 
Captain 3D é cômico, sobre um superheroi que sai dos quadrinhos para enfrentar um terrível inimigo monstro de poster de filme. 
Stripy, outro ótimo (nota 5) iraniano, trata do trabalho repetitivo em fábricas, quando um dos empregados é criativo demais para simplesmente pintar as caixas em listas (strips) pretas.
Myself Smoke, da série Myself, é um boneco que debate o fato dele ser fumante. Nota 4.
Dji. Death Sails é uma das aventuras de um atrapalhado Morte, desta vez com um pirata náufrago. Nota 4, IMAO.


  • Curtas 8
O polêmico Isand abre a sessão. Eu dei nota 2, pois me senti incomodado com a história. Mas devo admitir que ela me marcou. A técnica é muito boa e a história consistente com o cenário: um cão salsicha e um macaco são deixados abandonados em uma casa.
Deadly é nota 4, sobre a amizade que uma velhinha faz com Morte. O título é um trocadilho com uma gíria irlandesa.
Wer tärgt die Kosten ? é alemão até o título. Trata-se de uma mesa redonda entre um leão, leoa, zebra, hiena e urubu sobre a cadeia alimentar.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Anima Mundi 2015 - Dia 1

O evento que sempre rolava na última semana de julho mudou para a 2a semana de agosto em 2014. Agora mudou de novo: 3a semana de julho. Depois de idas e vindas entre Memorial e Espaço Itaú-Unibanco, agora estamos no Caixa Belas Artes. Ou seja: mudou.
Esse excesso de mudanças me preocupa. Vejam se grandes festivais de... qualquer coisa... ficam mudando de endereço a cada ano (salvo aqueles que por definição mudam sempre). Dá a impressão de que (1) não é um evento financeiramente estável para quem se dispõe a sediá-lo e (2) que a organização pena para arrumar local todo ano. Isso me deixa duplamente apreensivo, com aquele feeling de que este foi/é/será o último.
Isto posto, retomo a questão das notas, no rodapé deste post.
E já que é para mudar, criarei o tag "Anima Mundi" e marcarei os anteriores, para facilitar. E a mudança nos horários foi excepcional. As sessões de 1h acontecem a cada 1h30, dando tempo de sair da sala numa boa. E com lugares marcados (o que não tínhamos no Memorial), também não há necessidade de entrar correndo. Dá tempo de comer algo, ir ao banheiro, pensar na vida. 
Ao pessoal da organização: por favor, escrevam isso na pedra e não mudem nunca mais.
Mas o que importa é o que interessa:
  • Curtas 12

Começamos com uma ótima sessão, com 5 curtas nota 4.
Animator x Animation IV é claramente uma série. Lembro de uma briga de bonecos de pau (stick figures) que fez muito sucesso anos atrás e creio, pelo estilo, ter relação. A pesquisar.
Patch, embora tenha nota 4, não me permitiu registrar a memória. 
Taupes brinca com contos de fadas de um modo inusitado. Boa ação, boas tiradas. 
Stromae foi um dos muitos a cutucar a questão da internet/redes sociais nos dias de hoje. No caso, o alvo foi o twitter.
Parrot Away é sobre um papagaio desajeitado, feito e tosco que acaba sendo a única opção de compra para um pirata ostentador. Além de engraçado, aproveita para tirar uma onda dos dias atuais. O melhor da sessão.
  • Curtas 14
E aqui o nível sobe, para duas animações nota 4 e duas nota 5:
Viaje a Piés, espanhol conta os perrengues de um viajante de trem. Com ótimo estilo, meio anime sério (existe isso ?), e uma sacada impactante no final.
Five Minute Museum, nota 5, conta uma parte da história do mundo com fotos de peças do museu de Berna. Acaba sendo uma espécie de stop motion sem motion. Delicioso.
The Meek, outro nota 5, é sobre uma sociedade de insetos frente as dificuldades que enfrentam no mundo. São várias ótimas sacadas, desde a divisão dos indivíduos em castas até a relação de poder entre eles. Incrível.
Amélia & Duarte é português e narra a história do casal-título. Pessoalmente, não gosto do uso de atores ou mesmo fotos de atores em animações, mas isso é meu gosto pessoal. 
  • Curtas 15
Outros dois nota 5:
Dernière Porte Au Sud é um assombro tanto de roteiro quanto de técnica. Esta mistura a CG para o fundo das imagens, com animação de bonecos para os personagens. História incrivelmente triste, para a qual são dadas diversas dicas no meio até que a surpresa te pega no final. Melhor do dia.
Golden Shot, turco, conta a história de um robô movido a lâmpadas. A CG está excepcional, com movimentos realistas usando peças, digamos, impossíveis. A história fica interessante quando o robô conhece um vizinho. 
Joojeh Mashini é iraniano, e como tal imprevisível. No caso, nota 4: trata do excesso de conexão que temos na internet, com sacadas ótimas do que acontece com uma grávida. E eu nem sabia que tinha internet no Irã, muito menos redes sociais e ainda menos que tinha mulheres usando.
Madam I Deva será outro que ficarei devendo explicações.



Fica uma menção honrosa para "Nuggets", nota 3 da sessão Curtas 14, pela simplicidade e objetividade com que trata um tema espinhoso (que não posso revelar sob risco de dar spoiler).



quinta-feira, 16 de julho de 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

O Exterminador de Dinossauros

Venho aqui comentar os dois últimos filmes que vi no cinema, Jurassic World e Terminator Genesys. E como notei algo diferente em comum neles, resolvi comentar. Então...
Começando pela conclusão, estou com a impressão de que surge uma nova categoria de filme entre os blockbusters (ou candidatos a). Antes, uma breve sequência de definições:
- Continuação / Sequência (Sequel): é quando temos um filme que dá seguimento à história de outro. Usa-se os mesmos personagens, ambiente e preferencialmente atores. É a forma mais frequente de montar uma franquia. 
- Prelúdio (Prequel): similar à sequência, apenas difere pela história ocorrer cronologicamente antes do filme anterior. Vale lembrar que Star Wars pode ter ficado famoso por ter os prelúdios entre 1999 e 2005, mas o segundo Indiana Jones (Templo da Perdição) passa-se antes do primeiro (Caçadores da Arca Perdida) por exemplo.
- Refilmagem (Remake): é quando um filme é totalmente refeito, até com o mesmo nome, mas novos atores e alguns ajustes de roteiro. Em geral, isso é feito, segundo os estúdios, porque a nova tecnologia permite melhores efeitos visuais do que na época da filmagem anterior. Exemplos recentes são Godzilla (2x), King Kong (2x), Robocop e por aí vai.
- Reboot: nem tem uma boa palavra em português para isso. É quando se recomeça uma franquia que já fez sucesso e, em geral, teve algumas continuações. É o Batman de Christopher Nolan ou o Homem-Aranha com Andre Garfield. 
Já opinando, entendo que o excesso atual de refilmagens e reboots é sintoma de falta de criatividade nos grandes estúdios californianos. 

SPOILER ALERT !
SPOILER ALERT !
SPOILER ALERT !

Interessantemente, tanto Jurassic World quanto Terminator Genesys não se encaixam com precisão a estas definições. Preciso agora citar partes do filme para me explicar.
Em Jurassic World, tudo parece ser uma continuação. A história acontece 20 anos depois, os fatos dos primeiros filmes não apenas não são ignorados, mas usados e citados neste 4o filme da franquia. Locais importantes do primeiro filme aparecem neste último, degradados pelo tempo inclemente de uma ilha tropical. O antigo dono do parque é mencionado. 
Mas...

"Calma pessoal, tem pra todo mundo..."

Há elementos de remake no filme. O fato de as crianças se perderem e precisarem ser resgatadas pelo aventureiro é uma delas. A própria cena da fuga da Indominus Rex, quando o aventureiro se esconde embaixo do carro é bastante parecida. Novamente, quem salva o dia é a T-Rex (para quem não entendeu o primeiro filme, a T-Rex é a heroína principal, pois ela mata as velociraptors salvando os humanos e o único humano que ela mata é um advogado, o que convenhamos não é tão maléfico assim).
Jurassic World, portanto, flutua entre essas duas categorias com relativa tranquilidade.

Já Genesys te engana de meneira muito elegante. Tudo começa como um remake do primeiro filme, no sentido clássico da definição. E isso surpreende, pois sabemos pelo trailer que nosso grande governador estará lá como mocinho. As cenas são idênticas, inclusive a posição da câmera mostrando o Exteminador e o Reese aparecendo dentro da daquela bola que faz a viagem no tempo. E em rápida mudança de plot, tudo é alterado. Em 1984, quando se passa a trama original, Sarah Connor é uma lutadora, não a moça ingênua da versão original, ela tem um Exterminador que a ajuda e protege e um T-1000 está na cola de todos. 

He is back !

Mas...
Exato. Há claros elementos de continuação, ao vermos o novo vilão da história, remake, na parte inicial do filme e, claro, prelúdio, por ter viagem no tempo.
E como classificamos isso agora ? 



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Elogio à NET

Sim, é isso mesmo.
Não, não tem o tag "humor".

Ontem, 7/7 pela manhã, precisei fazer um download de um arquivo grande, coisa de 1,3GB. Não entremos em detalhes, apenas era importante sem ser urgente. Logo, o notebook poderia passar o dia fazendo isso. Como já passou.
Então, por volta de 5h55 dei início ao download e fui cuidar do meu início de dia. Banho, barba, mochila, café... Entre essas coisas, observei que o arquivo estava vindo em alta velocidade: coisa de 1,2 MB/s. E não era apenas velocidade declarada: o arquivo estava 72% baixado.
Fiquei abismado.
Terminei minhas coisas e olhei o relógio: 6h23. Olhei o notebook: 96,2%. E foi isso mesmo: em pouco mais de meia hora, todo o arquivo estava baixado e pude desligar o notebook antes de sair de casa, economizando energia, desgaste do aparelho e riscos de sobrecarga elétrica.

Net, é isso que eu quero de vocês: entregue a velocidade que eu pago. Faça isso mais vezes e virei aqui mais vezes te elogiar. É simples, e todos ficam felizes.

E, caso não tenha ficado claro:
Sim, é isso mesmo.
Não, não tem o tag "humor".


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Só coisas boas

Será que consigo manter isso ? Não sei, mas hoje deu.

1) Foi uma semana em que refleti sobre a Maioridade Penal, e organizei os argumentos pela primeira vez. Sempre é bom parar para pensar porque se tem uma opinião sobre um assunto, e o Asimovia me fez isso.
2) Não menos importante, gostei do que escrevi sobre a crise grega que parece não ter fim.
3) Arrumei minhas lembranças de viagem do ano passado, notadamente, para a Alemanha. Coisa pacas, e foi muito bom relembrar algumas das passagens por lá.
4) Fechei a 5a temporada de House, e agora sigo para Helix, na minha política de alternância entre coisas recentes e antigas. Sim, House é antiga pra mim.
5) Uma importante atividade do trabalho está chegando ao desfecho. Vejo um horizonte já.
6) Em uma excelente aventura de D&D 5th, eu causei a única morte de toda a sessão: um kobold.

Realmente acho que fiz mais que isso. Mas fico por aqui.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Maioridade Penal

Não gostei do resultado a que chegou o Congresso sobre a Redução da Maioridade Penal. A quantidade de erros é assombrosa nesse assunto, e ao tentar listá-los fatalmente falharei. Mas não me escuso de tentar.
1) A Maioridade Penal nem deveria existir, para começo de conversa. O mais aceitável é uma lei única, onde os mais jovens, hoje "menores de idade" seriam julgado e condenados a penas compatíveis com os crimes e suas capacidades, caso a caso.
2) Dado que inventaram esse conceito de maioridade, optou-se no Brasil por um valor arbitrário de 18 anos. Nunca houve qualquer explicação sólida sobre esse número, tanto que outros lugares usam outros valores. O que mais se aproximou de explicar foram os psicóticoslogos com coisas como "personalidade plenamente formada" ou "maturidade completa" ou "compreensão perfeita dos atos". Levada ao pé da letra, 95% ou mais das pessoas nunca atinge a maturidade, então.
3) Poréééééém, os mesmos psicólogos que falam que aos 16 anos o indivíduo não está plenamente formado e não tem compreensão não hesitam ao afirmar que a sexualidade está chegando mais cada vez mais cedo, defendendo comportamentos que vemos em crianças de 10 ou até 8 anos. 
Explica então, Bidu, porque a sexualidade mudou seu ponto inicial mas a tal maturidade não.
4) Nenhum argumento disposto em (2) ou (3) resiste ao fato de um menor, quando detido, imediatamente se identificar como tal para não ser preso. Significa que ele sabe o que fez, sabe que o que fez é errado, sabe que é menor de idade e sabe que não pode ser punido. Isso por si só deveria dar curto no "argumento" de quem é contra a redução.

Saindo da teoria, vamos à prática. Há criminalidade cometida por menores, e ninguém disputa isso. Simplesmente não há dados. Então os que dizem que "menos de 1% dos crimes são cometidos por menores de idade" mentem (doloso) ou divulgam uma mentira (culposo). O mesmo comentário vale para qualquer outro índice (30% ou algo assim).
Infelizmente, porém, o debate sobre ou tema foi, é, está e continuará a ser muito raso, tão raso que tive dificuldade de chamá-lo como tal. Vejo apenas uma coleção de falácias, passando por declive acelerado, non sequitur, falsa correlação e apelo à emoção principalmente. Neste aspecto, ambos os lados da discussão fizeram até agora um papel ridículo frente à Logica.


Aqui é preciso diferenciar. Sim, a turma que é contrária fez muito mais feio, mas muito. Segue uma delas, mas há muitas outras:


O leitor com um pingo de senso crítico vê várias distorções nisso. Já citei, não repetirei. Até tenho comentado que a causa desse baixo nível são os anos de "política, religião e futebol não se discute": deu essa merda de povo que não sabe argumentar tema algum. Burrice aguda em nossas criações, em assunto que me orgulho de ter ignorado os mais velhos.

Saindo da prática e indo para o plenário, temos o que aconteceu nas últimas 48 horas no Congresso Nacional.
1) Na 3a-feira foi votada uma PEC 171/93 para reduzir a maioridade. Ela foi derrotada, no sentido de que faltaram 5 votos para ser aprovada: 303 x 184.
2) Isso por si só é estranho: ela recebeu 62,2% dos votos válidos quando sabemos que o apoio popular beira os 90%. Os representantes do povo no Congresso não deveria ser donos de seus votos, mas representantes. A democracia representativa deveria ser apenas um método prático para o povo todo expressar suas opiniões. No entanto, cerca de 135 congressistas, em cálculo aproximado, usurparam seus eleitores neste 30 de junho, já madrugada de 1o de julho.
3) Não satisfeito com a derrota, o presidente da casa legislativa máxima fez uma manobra, digamos, sorrateira para trazer o assunto à tona novamente apenas um dia depois, e não na próxima legislatura como deveria ser. Que se diga, ele ao menos foi fiel a seus evangélicos e conservadores eleitores ao agir assim.
4) A pressão foi grande, e mais de 20 deputados mudaram de lado em menos de 24 horas. O resultado foi o correto portanto, pois é o que a nação quer. Mas a sensação de "dois erros gerar um acerto" é mais do que incômoda.

Para o longo prazo, vale lembrar o post que fiz aqui há pouco mais de 2 anos. Nenhum dos esquerdas que consultei disseram ser boa ideia um plebiscito sobre o tema, pois o povo não tem educação suficiente para votar esse tema. Leia-se: "não tem educação suficiente para concordar comigo". 

Ora, façam-me um favor: vão até a padaria comprar 200g de coerência. 

Democracia que só vale para quando você está ganhando não é democracia, filhotes. É referendo midiático apenas, algo que existe em alguns lugares como Venezuela, Cuba e Coreia do Norte. Tipo isso, entende?

Então fica o recado similar ao que aconteceu nos EUA na semana passada quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado (lembrando que já vale aqui desde 2011): aceitem a derrota e parem com esse mimimi infernal de "regressão da civilização". Não sejam ridículos.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Presente de Grego

Ok, com o anúncio feito ontem de feriado bancário de 1 semana (!) na Grécia, torna-se necessário dizer o óbvio: a Grécia foi pro vinagre. Então vamos falar um pouco sobre o que acontece lá.
  • Causas
A Grécia gastou o que não tinha e agora não tem como pagar o que gastou. Simples assim. Sou um radical opositor do conceito de se permitir governos contraírem déficit público. Entendo que isso possa acontecer momentaneamente, por uma queda de arrecadação de tributos, mas vejo isso como um cheque especial do banco: você usa para fazer um ajuste rápido e só.
O que me deixa curioso na parte da origem do problema é que contas nacionais são grandes demais para ficarem camufladas. Então foi permitido à Grécia fazer o que fez. Foi permitido por agentes internos, por outros governos, por bancos e pelos seus cidadãos eleitores, que foram mantando os governos onde estavam, sem nenhuma mudança radical de rumo, exceto uma no começo do ano, sobre a qual falarei em seguida.
Agora há uma fatura vencida de 1,6 bilhão de euros, tendo o governo menos de 100 milhões em caixa. Desta vez, os governos de outros países participantes do bloco do Euro não querem rolar a dívida, com quem diz: "Chega disso, criança. Comporte-se ou vai ficar sem mesada". Tratas-se mais de uma questão de comportamento fiscal do que de dinheiro, já que esse montante pode facilmente ser coberto por diversos agentes financeiros sozinhos. 


  • Consequências
A fatura chegou e agora alguém tem que pagar. Mas não estou narrando 2015 aqui, mas 2013, 2011 ou mesmo 2008. O governo grego precisava cortar severamente as despesas para fazer as contas, ao menos, entrarem o eixo. Se você acha dolorido o ajuste brasileiro, o grego foi muito, mas muito pior. Houve corte de pessoal e redução (não achei o valor, mas lembro-me vagamente de algo como 40%) nas pensões, aumento de impostos sobre diversos setores e por aí vai.
O povo foi às ruas protestar. E protestou. E o ajuste jogou o país em recessão, como esperado, que perdurou. O povo foi às urnas e nelas protestou novamente. Desta vez, escolheram um governo de esquerda radical e aí pavimentada a estrada para o desastre: sua plataforma era não aceitar mais ajustes fiscais.
Simplesmente não faz sentido, aliás como nada que a esquerda fala faz. Entende-se e se compadece da dor do cidadão grego que nada fez errado, talvez até tendo votado em candidatos derrotados, mas pela irresponsabilidade de seu governo, vê-se atolado em uma crise financeira, sem pensão, sem dinheiro, sem nada. Mas recusar-se a pagar a dívida nacional simplesmente não resolve problema algum, como eles estão a ponto de descobrir. 
  • Novas Medidas
Para pagar essa conta, o governo precisa abandonar o Euro adotar uma nova moeda. Pessoalmente não vejo outro jeito. Tendo controle sobre sua nova base monetária, o governo pode emitir moeda, o que não pode fazer com o Euro, e com ela pagar as dúvidas. Mas não existe almoço grátis, e uma operação que dobrasse o meio circulante do país, grosso modo, contrata uma inflação de 100% em poucos meses, para não dizer semanas. Daí inicia-se o ciclo de negociações salariais, e cada aumento come um pedaço do que o governo conseguiu para saldar as dívidas e novo ciclo inflacionário fica alimentado. Essa é a origem da estranha, mas correta, afirmação de que salário gera inflação. Não que realmente a gere, mas a perpetua. O que na realidade acontece é que a inflação é um boleto bancário para cada cidadão pagar uma parcela do déficit nacional. E cada cidadão que consegue um aumento salarial esquiva-se, naquele momento, de pagar sua cota e o problema permanece até alguém por ordem na casa. Nada que não tenhamos visto aqui nos anos 80 e 90. E doía, né ?
Curiosamente, ou não, há um plebiscito marcado na Grécia para o próximo domingo sobre a permanência ou não na zona do Euro. Fico aqui imaginando, rindo da armadilha lógica e populista desse plebiscito: se o povo votar pela continuidade, o governo grego fica oficialmente insolvente e não tenho ideia do que isso acarretaria. Os bancos vão executar as dívidas, sei lá, penhorando prédios públicos? Ou o mais simples, acontece um calote generalizado e azar de quem tinha títulos gregos na carteira (pessoalmente, não fico com muita pena de quem financiou esse furdúncio fiscal, mas enfim...). Vale observar que o calote, como visto em diversos casos anteriores, contamina os ativos de praticamente qualquer instituição financeira do mundo, em maior ou menor grau.
  • E se sair ?
Expliquei o lado grego da desgraça, que perduraria sem surpresa por alguns anos, para não dizer décadas. Mas a Zona do Euro teria suas conseqüência que, confesso, falho em entender as causas. 
Imaginemos se o Maranhão ou Amazonas deixasse a Zona do Real: qual o impacto real na economia do Paraná ? Honestamente, nenhum. A Grécia detém 1,35% do PIB da Zona do Euro. Dados aqui (e que site !!!) e aqui, equivalente a algo entre o que os referidos estados brasileiros. Notem que não se trata de "vaporizar" a economia da Grécia, ou do Maranhão ou Amazonas: eles apenas deixariam de usar a mesma moeda. Nada impediria uma empresa de São Paulo vender para uma empresa no Maranhão que usasse uma moeda local chamada, digamos, sarneys (S$). O mesmo se a Grécia adotar a Nova Dracma: os gregos continuariam a pode comprar BMWs alemãs. 
Então não entendo, de verdade, as previsões apocalípticas sobre a Zona do Euro por causa dos gregos e suas tragédias. Alguns dizem que haveria corrida bancária na direção norte, fugindo-se de bancos de países potencialmente mais vulneráveis, mas isso nada mais é do que os problemas deles mesmos afugentando as divisas. Não culpemos a Grécia por erros similares, embora menores, cometidos por lusos, espanhóis, irlandeses e italianos.

A conferir.